Review #1- Derek and the Dominos – Layla and Assorted Love Songs (1970)

Review #1 – semana 1 – Julho 2015

Derek and the Dominos – Layla and Assorted Love Songs (1970)


Derek & The Dominos - Layla And Other Assorted Love Songs - Front

Capa original do artista plástico francês Fransdsen-de Schonberg

De Fernando Rodrigues

O álbum que abre a série de “reviews” que iremos abordar no Rockmidia é uma obra-prima setentista. Um álbum que marcou a união de alguns músicos em momentos únicos e que assim como o cometa Halley e o alinhamento dos planetas, ocorre somente uma única vez entre centenas e milhares de anos.

É isso que marca a criação e a gravação do único álbum do Derek and the Dominos, com Eric Clapton e Duane Allman, da The Allman Brothers Band no mesmo cast. Presente na lista dos álbuns memoráveis e indispensáveis de qualquer crítico ou publicação especializada, servindo de inspiração para infinitos outros artistas e músicos, esse disco também merece destaque na sua discografia pessoal certamente

O título da obra é uma alusão imediata à composição principal do play que é “Layla”. A inspiração por trás das composições estava em uma história de amor, digna de filmes e peças teatrais romancistas, protagonizada pelo amor incondicional de Eric Clapton por Pattie Boyd, então esposa de seu melhor amigo declarado, George Harrison (o famoso Beatle).

Temos um Clapton confuso ao tentar alinhar a razão e a emoção dos fatos. Essa famosa história de paixão, que ajudou a formar os Dominos, serviu como base também para a composição de músicas muito inspiradas, com um lirismo romântico e uma melodia bluesistica dosada com um rock direto. Afogando-se em bebidas e drogas para superar esse amor não correspondido, Clapton, para o bem da humanidade, encontrou nas composições que formam o disco, uma forma de expressar seus sentimentos e a dedicatória para sua amada.

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Pattie Boyd, a musa inspiradora…

Tendo saído do Blind Faith, grupo criado pós-Cream, Clapton no final dos anos 60 foi ser músico de apoio da banda Delaney Bonnie and Friends, um fato inusitado, já que sua reputação no meio musical era bastante consagrada para se tornar um músico de apoio. Nessa mesma época Clapton produziu seu primeiro álbum juntamente com Delaney, vindo a assumir os vocais de forma mais segura e original.

Com os mesmos músicos da Delaney Bonnie and Friends, Bobby Whitlock (piano e teclados), Carl Randle(baixo), Jim Gordon (bateria) e um entrosamento já existente, o “Deus da guitarra” assume as 6 cordas e forma o Dominos com sua única obra de estúdio. Com a voz marcante e a melodia das teclas de Whitlock e uma cozinha coesa e precisa de Gordon e Radle, a falta de inspiração parecia impossível para o talento dos músicos envolvidos, porém foi isso oque aconteceu. Após um conjunto de apresentações em pubs e bares de pequena expressividade, o quarteto viaja até Miami para iniciar a gravação de um álbum. Fruto de jams e material composto ainda durante a fase com a banda de Delaney, as sessões de gravação iniciaram, mas não apresentaram rendimento e produção. Foi ai que após assistir um show beneficente do The Allman Brothers, a convite do produtor Tom Dowd, Clapton ficou fascinado com a postura do líder da banda Duane Allman, e ali mesmo, após o espetáculo, iniciou uma amizade com o mestre da “slide guitar”, vindo a convidá-lo para tocar nas sessões de estúdio seguintes dos Dominos.

Com essa reunião de gênios musicais, o álbum finalmente se desenvolveu, com músicas que retrataram liricamente quase sempre o sofrimento amoroso de Clapton e a levada blues de um amor desesperado e sofrido.

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Clapton e Duane – talento que transborda musicalidade nas guitarras

A inspiração nas letras é perceptível já na música de abertura do play “I Looked Away”, em que Clapton questiona perante Deus o pecado de amar a mulher de outro homem, assumindo, mesmo assim, esse risco até o último dia de sua vida. Na balada “Bell Bottom Blues”, esse lirismo continua com trechos como “Do you want to see me crawl across the floor to you? (Você quer-me ver rastejando no chão por você?).

Em “I Am Yours” temos um arranjo acústico atemporal com uma letra que expressa ainda mais o cego amor de Clapton por Pattie. O disco também apresenta composições mais agitadas e letras menos sentimentais, como “Anyday”, com Bobby nos vocais e “Keep on Growing”com um dueto soberbo de Duane e Clapton onde o swing dá as boas-vindas. Com uma pitada mais rock, temos “Tell the Truth” e “Why Does Love Got To Be So Sad?”

O blues tão característico na formação do Slowhand, se torna mais profundo e triste em “Nobody Knows You When You´re Down and Out”.  Já no meio do disco, temos um espetáculo de improviso entre Duane e Clapton mais uma vez com “Key To The Highway” e seus solos radiantes e cheios de feeling. Na sequência temos  “It´s Too Late” e “Have You Ever Loved a Woman” em mais uma declaração bluesística, confrontando os fatos da sua amizade com seu amor incontrolável pela esposa do amigo.

“Little Wing” estoura nos auto-falantes como uma homenagem digna ao ex-parceiro de jams Jimi Hendrix que inusitadamente foi gravada 8 dias antes de sua morte. A morte estaria ao lado de Clapton por mais um tempo, levando Duane Allman em um acidente de motocicleta, 1 ano após o lançamento do disco. Fatos esses que colaboraram ainda mais para levar Clapton ao vício de heroína e a sina de azar que acreditava carregar àqueles que andassem com ele. Motivo esse, estúpido ou não, que o fez preferir não divulgar o disco e as turnês com seu nome – aparecendo apenas na contracapa.

Para encerrar com chave-de-ouro temos a obra máxima do play e talvez da vida de Clapton: “Layla”. A mesma Layla do conto persa, de um amor proibido entre dois jovens, do poeta Nizami, cujo nome foi emprestado para mascarar a verdadeira identidade da sua musa inspiradora Pattie Boyd. A canção serviu de concepção lírica para as demais do álbum, trazendo já nos primeiros acordes um riff espetacular executado por Duane Allman, que na segunda parte (instrumental) de seus 7 minutos, o piano de Jim Gordon nos brinda com a sutileza do amor de Clapton personificado em notas musicais de pura esperança e sofrimento que carregava por sua amada. Cada segundo de audição justifica o porquê de Eric Clapton figurar entre os maiores músicos e guitarristas de todos os tempos.

Como resumo da obra, para que você, leitor, seguidor e ouvinte não tenha dúvida nenhuma do quão importante representa esses 77 minutos de música no mundo do rock segue uma declaração do produtor Tom Dowd e o que presenciou entre Clapton e Duane nos estúdios.

“Deveria haver algum tipo de telepatia acontecendo entre eles, pois eu nunca havia visto inspiração espontânea acontecendo naquele nível. Um deles tocava uma nota e o outro reagia instantaneamente. Nunca um deles pediu ao outro para tocar de novo. Eram como se duas mãos coubessem em uma única luva.”

 Tom Dowd, produtor do disco.

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(Del + Eric = Derik and The Dominos) = obra-prima

Curiosidades do Álbum:

# A repercussão do mesmo pós-lançamento foi pífia tanto por parte da crítica quanto pelas vendas nas paradas dos EUA e Reino Unido. Muito devido a insignificante promoção da gravadora Polydor e pelo fato de Clapton, optar por não divulgar abertamente sua participação na obra.

# A origem do nome da banda, dentre tantas histórias contadas , uma delas conforme relatada na autobiografia de Clapton, foi de Tony Ashton (do trio Ashton, Gardner and Dyke) que sugeriu o nome “Del and the Dominos” (sendo “Del” um apelido de Clapton). Del e Eric foram então combinados, dando origem ao nome Derek, sem revelar diretamente até então, a presença de Clapton como integrante.

# A capa do álbum é uma pintura do artista plástico francês, Fransdsen-de Schonberg, cuja figura é uma mulher loira, com os olhos azuis – características similares a de Pattie Boyd. 

# Na primeira jam session no Criteria Studios em Miami após o concerto na qual Eric convidou Duane para as gravações da obra, o produtor Tom Dowd registrou de 15 a 18 horas ininterruptas de jam entre os músicos. Esse material foi lançado no CD 2 da edição The Layla Session: 20th Anniversary Edition de 1990. (Que parte você pode conferir aqui: https://www.youtube.com/watch?v=pExihNfOb-g)

# O grupo se dissolveu pouco depois, muito em razão da problemática situação pessoal de Clapton, seu vício em heroína e desentendimentos entre os músicos. Ironia do destino ou não, após um hiato de quase 1 ano Clapton volta a tocar apenas a convite de George Harrison no Concert for Blangadesh e anos mais tarde no Rainbow Concert em 1973, organizado por Pete Townshend como uma tentativa de tirar Eric das drogas e trazê-lo de volta aos palcos.

# Duane Alman após retornar a sua banda original, participou de dois concertos apenas durante a turnê de divulgação, um emTampa, Flórida realizado em 1 de Dezembro de 1970, e outro no em Syracuse, New York, na noite seguinte. (O registro do concerto na Flórida vocês podem conferir nesse bootleg aqui : https://www.youtube.com/watch?v=iT1AMMcggO0)

# Para o produtor Tom Dowd, “Derek and the Dominos – Layla and Assorted Love Songs” era o melhor álbum que estivera envolvido desde “The Genius of Ray Charles”. Segundo entrevistas posteriores, Clapton, afirmou tambem que um segundo LP estava sendo composto antes do fim do grupo.

# A sina que Clapton acreditava carregar para aqueles que andavam com ele, verídica ou não, teve um final triste para o baixista Carl Radle que morreu em 1980 devido a complicações renais associadas ao abuso de álcool e drogas. Já para o baterista Jim Gordon, a tragédia foi pior, apresentando esquizofrenia não diagnosticada, matou a própria mãe com um martelo em 1983 durante um surto psicótico, sendo confinado a uma penitenciária-hospital psiquiátrico em 1984, onde permanece até os dias de hoje.

# Clapton veio a conquistar sua amada Pattie anos depois, vindo a se divorciar 9 anos posteriormente. (nada como o tempo para curar as mágoas – Nota do editor)

# A inspiração para o começo de Layla veio de um blues de Albert King, ídolo de Eric, chamado “As The Years Go Passing By” (1967), conforme citado por Clapton em entrevistas anos depois.

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O triângulo amoroso – foto 1 (Pattie e Harrison)/ foto 2 (Pattie e Clapton)

Faixas

  1. “I Looked Away” (Clapton,Whitlock) – 3:05
  2. “Bell Bottom Blues” (Clapton) – 5:02
  3. “Keep On Growing” (Clapton, Whitlock) – 6:21
  4. “Nobody Knows You When You’re Down And Out” (Cox) – 4:57
  5. “I Am Yours” (Clapton,Nezami) – 3:34
  6. “Anyday” (Clapton, Whitlock) – 6:35
  7. “Key To The Highway” (Segar,Broonzy) – 9:40
  8. “Tell the Truth” (Clapton, Whitlock) – 6:39
  9. “Why Does Love Got To Be So Sad?” (Clapton, Whitlock) – 4:41
  10. “Have You Ever Loved A Woman” (Myles) – 6:52
  11. “Little Wing” (Hendrix) – 5:33
  12. “It’s Too Late” (Willis) – 3:47
  13. “Layla” (Clapton,Gordon) – 7:04
  14. “Thorn Tree In The Garden” (Whitlock) – 2:53

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