Review #2 – Rainbow – Rising (1976)

Review #2 – semana 2 – Julho 2015

Rainbow – Rising (1976)

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 Capa do disco com a arte fantástica de Ken Kelly

De Fernando Rodrigues

O álbum que dá sequência a nossa série de Reviews de discos indispensáveis aos amantes do Rock é uma obra que serviu de inspiração para gêneros distintos no meio. Não sou um fã de rótulos e como tal, não gosto de rotular gêneros dentro do rock por acreditar que cada um deles mistura influências de diversos períodos, bandas e artistas. Essa pureza que caracteriza o gênero ao se tratar de música, para mim, não é completa ou imutável.

Porém é inegável que o Heavy Metal, assim como o Hard Rock,o Punk Rock, entre outros estilos, pode ser tocado de diversas maneiras: com mais agressividade, mais velocidade, volume, técnica, etc. Mas todos, em conjunto, carregam em si um pouco de cada época. Pois bem, contrariando a mim e alguns fãs, críticos gostam de citar o álbum que vos apresento abaixo, como a origem do Metal Melódico ou do Power Metal. Muito devido à temática das letras de caráter épico- mitológico e o flerte com melodias de composição clássica, sinfônica, além da incorporação de uma percussão mais pulsante e teclados e sintetizadores constantes.

Bom, chega de mistério, o álbum, que dá título ao nosso Review de hoje, é o segundo play da banda do guitarrista Ritchie Blackmore, Rainbow – “Rising”, de 1976.

“Rising” é o segundo álbum de estúdio do Rainbow. Sua gravação durou menos de 1 mês, em fevereiro de 76 na cidade de Munique, Alemanha. Contando com a produção do lendário Martin Birch (que produziu Deep Purple e viria a produzir o Iron Maiden anos mais tarde), seu lançamento oficial se deu no dia 17 de Maio do mesmo ano.

A capa do álbum vale um destaque à parte, a arte é do mestre Ken Kelly que ajudou a caracterizar o estilo com belíssimas obras do tipo e foi baseada na Mitologia Grega, onde nota-se em destaque a mão de Netuno, surgindo do mar revolto em ondas para segurar o arco—iris que caracteriza o símbolo e o nome da banda. Ainda percebe-se um personagem menor na parte inferior observando o espetáculo atônito, além das torres de um castelo, que certamente pode ser associado ao castelo que deu origem a capa do primeiro disco do grupo. Enfim, mais um símbolo do gênio de Ken Kelly, que muitos fãs adotaram como imagem ícone na história do rock.

Lembrando que Ken, com seu estilo épico, traçou capas de outros artistas e bandas de renome, como a clássica capa de “Destroyer” do Kiss e várias da banda Manowar, além também, das revistas de Conan, o Bárbaro e pôsteres de divulgação de diversos filmes. Ao lado segue o site do artista para uma melhor apreciação de sua obra: www.kenkellyfantasyart.com.

Fazendo uma rápida análise do período pré-Rising: Ritchie Blackmore, logo após sua saída do Deep Purple, cria a banda Rainbow, com integrantes remanescentes da banda ELF que ele conheceu no bar Rainbow, em Hollywood. Reduto frequentado por músicos da época, o bar acabou servindo de inspiração para o nome da banda e para a criação do primeiro álbum do grupo, que na época ainda trazia o nome de Ritchie Blackmore no título – para anseios de publicidade e divulgação. Com uma sonoridade distinta, calcada em influências neo-clássicas, letras medievais e contando com os poderosos vocais de Ronnie James DIO, o Rainbow em 1975 apresenta à mídia seu debut com o nome de “Ritchie Balckmore´s Rainbow”.

O álbum de estreia, mesmo com a qualidade dos músicos envolvidos, recebeu poucas críticas favoráveis e a recepção do público foi aquém do esperado por Blackmore. Fazendo este despedir toda formação inicial, com exceção de DIO.

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Formação de “Rising”, que contou com Jimmy Bain /Cozy Powel /Ronnie James DIO /Ritchie Blackmore /Tony Carey

Para o segundo álbum, Blackmore recrutou para as baquetas, o então pouco conhecido, Cozy Powel, ex-músico de Jeff Beck, o baixista Jimmy Bain e o tecladista Tony Carey. Essa formação realizou uma turnê ainda no final de 1975, oque serviu de confirmação á Blackmore para a consolidação do grupo na criação de um álbum vindouro. Esse álbum seria o “Rising”, lançado um ano depois. Considerado para muitos fãs do grupo, o melhor da carreira da banda.

O tempo recorde de gravação do álbum se deu justamente devido ao entrosamento subsequente no palco dos músicos envolvidos. Fazendo, inclusive, que algumas novas músicas que estariam no novo disco, fossem executadas já nessa turnê-final de 1975. Caso de “Stargazer” e uma versão de “Do You Close Your Eyes”.

Com 33 minutos de duração, mesclando músicas diretas de um hard rock pulsante com épicos de temática medieval, o álbum apresenta dois lados divididos de forma magistral. Sendo lançado originalmente em Vinil: Do lado A, notamos 4 músicas mais rápidas, cuja as faixas se assemelhavam mais com a proposta direta das músicas do primeiro disco, porém com uma diferença considerável no que tange a nova formação, (como “Tarot Woman” , que conta com uma intro soberba de Tony Carey e seus teclados ). Especialmente devido a bateria mais agressiva de Powel e o sintetizador constante de Carey, que em conjunto com o baixo coeso de Bain, oferecia o ambiente ideal para as melodias e solos de Blackmore e para a versátil e original voz recheada de drives e nuances de Ronnie James DIO. DIO que apartir desse registro, figuraria entre os mestres do microfone na história do Heavy Metal.

Já do outro lado, temos oque muitos consideram como um dos melhores “B sides” já criados desde os anos 70. As duas faixas maiores que completam um conjunto de 6 músicas, são de um talento ímpar. Com mais de 8 minutos cada, elas carregam um lirismo que certamente foi retirado de livros fantásticos, cujo temas envolvendo espadas, dragões, castelos e princesas em conjunto com riffs e melodias que mixaram influências bluesy com sinfônias clássicas europeias, formaram oque seria um álbum modelo, um ícone futuro para muitos outros artistas contemporâneos. Na parte musical a base criativa ficou a cargo de Blackmore e Dio, enquanto as letras ficaram a cargo do “baixinho”.

Feito as devidas apresentações de cada lado que forma a obra-prima “Rising”, vamos agora nos atentar aos detalhes de cada canção e suas singularidades.

A faixa que abre o play é “Tarot Woman” e é também a que apresenta o talento de Tony Carey àqueles que desconheciam o músico. Logo de cara percebe-se ao longo de seus quase 6 minutos uma liberdade de improviso e atuação da nova formação muito diferente da apresentada no álbum anterior, deixando para aqueles que duvidavam do novo cast, um gostinho de arrependimento ao ouvir as viradas da bateria de Cozy Powel e as melodias dos teclados de Carey. Vale ressaltar também a genialidade dos riffs característicos de Blackmore, a voz poderosa de DIO e o baixo seguro de Bain.

Nas faixas seguintes, 2  e  4 (“Run With The Wolf” e “Do You Close Your Eyes” respectivamente) temos um hard rock direto, que se escutadas atentamente, percebemos uma grande influência da fase áurea do Deep Purple e suas batidas e vocais poderosos. Aqui, os destaques ficam com Ronnie e os teclados de Carey, que nos remete muito a sonoridade do órgão do maestro Jon Lord.

A terceira é “Startruck”, com uma sonoridade ainda remetendo ao Purple, principalmente por parte de Ritchie que logo na intro faz parecer que foi uma composição criada para a fase Burn ou Machine Head.  Juntamente com os vocais versáteis de DIO adicionados às viradas e os agressivos pedais de Powel faz da canção um casamento perfeito entre um hard rock pesado e riffs melódicos. A letra foge da temática fantástica que domina o lirismo do álbum, contando uma história, um tanto quanto hilária, de uma “perseguição” por parte de uma groupie à Blackmore.

Já no lado B, temos a primeira canção épica do disco, a “cereja do bolo”, o crème de la crème no quesito técnica, criatividade e performance de cada integrante.  A faixa que resume o álbum é “Stargazer”, um clássico absoluto do Rock. Aqui, o destaque maior fica com os 2 principais componentes do grupo:  o líder da banda e seu solo de guitarra genial, que certamente figura entre os melhores da carreira de Ritchie Blackmore e Ronnie James DIO, que se ainda hoje sua interpretação na canção impressiona, imagina na época do lançamento com os reduzidos recursos de estúdio e de mixagem técnica. Seu alcance vocal, empostação e drive soberbos nesse registro, fazem de Stargazer um dos mais elaborados vocais de Rock da história. Em “Stargazer” tudo soa magistral, dos teclados ao baixo, e claro que não podemos esquecer também da introdução da bateria de Cozy Powel, que assim como os vocais de DIO, impressionam ainda hoje.

Apreciem sem moderação – Stargazer HQ

Agora imagine para você, leitor, oque era ouvir isso no longínquo ano de 1976. Imaginou??? (ABSURDO!!!). Como se não bastasse a faixa ainda conta com a participação da Orquestra Filarmônica de Munique que em conjunto com os teclados de Tony Carey forma uma sinfonia extasiante. A letra de “Stargazer”,por sua vez, retoma a temática fantástica do disco, contando a história de um mago e seu poder de persuasão ao convencer trabalhadores a construírem uma Torre para si, como sinal de felicidade coletiva futura. Ao final, porém, esse mago acaba morto ao cair da sua própria Torre, frustrando a todos que acreditaram em suas palavras. A moral da letra tem significados distintos, mas como já citado pelos integrantes posteriormente, o objetivo é questionar a idolatria de falsos ídolos, possíveis Messias ou pessoas que se autoproclamam figuras da salvação do sofrimento alheio.

19761209_ticket19760927_ticketrainbow_ticket_1976Tickets de shows da turnê que divulgou o álbum mundo a fora.

A faixa que encerra o álbum é a segunda canção épica do disco: “A Light In The Black”. Aqui, os instrumentais são intensos e a rápida guitarra de Blackmore duela com os teclados de Tony Carey.Lembrando mais uma vez, as atuações ao vivo do guitarrista com sua antiga banda e seus solos de improvisação extensos.  A pegada rítmica de Cozy Powel ao longo de toda música é sensacional também, mesclando batidas no prato com um pedal contínuo e preciso, não reduzindo a velocidade inicial em nenhum momento. Os vocais de Ronnie, como em todo o disco, dispensa qualquer comentário adicional, já que aqui a interpretação é de altíssima qualidade como de costume.

 “Rising”, ainda apresentou uma turnê de divulgação pela Europa, contando em alguns momentos com a abertura do AC/DC que estava surgindo na cena Hard como o maior expoente do Rock Australiano. Por questões publicitárias e para a alegria dos fãs, a turnê promocional do disco gerou um disco ao vivo, com registros de shows no Japão e Alemanha, reunidos no álbum On Stage, do ano seguinte (1977). (Que você pode apreciar parte aqui com esse áudio de qualidade maravilhosa da apresentação de Tóquio: https://www.youtube.com/watch?v=mirxz9FICJo).

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Pôsters de divulgação da turnê On Stage – 1976/1977

A formação da banda que gravou o disco e que cravou seu nome história do Rock seria desfeita entre idas e vindas, com a demissão definitiva do tecladista Tony Carey e Jimmy Bain por parte de Blackmore ao alegar “desentendimentos musicais sem maiores detalhes”. O trio Powel, DIO e Blackmore seguiriam com o Rainbow na sua jornada de “Long Live Rock n`Roll. Bom, mas essa história fica para outro Review.

So….that´s it friends!! “Rising” é mais um álbum memorável para configurar na sua discografia pessoal . Mais um que ajudou a moldar tendências e a lapidar artistas contemporâneos, que após ouvir esse tesouro, se viram na obrigação de colher influências e detalhes para conceber suas próprias músicas .

Esse é “Rising”, da banda Rainbow!!! Enjoy friends!!!

 

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A banda em sua melhor fase nos palcos. No cenário o arco-íris como marca da banda

 

Curiosidades do Álbum:

# Ironicamente, Dio já expressou em entrevistas que considera o lado B do disco, com as 2 faixas de longa duração,  um excesso.  Muito devido, as longas intervenções instrumentais e os duetos constantes entre a guitarra de Blackmore e os teclados de Carey, em especial na faixa “A Light in The Black”;

# As vendagens do disco ainda hoje são questionáveis, comparado com o tamanho prestígio que a obra representa no mundo do Rock. Fato, que leva a discussão por parte de críticos e apreciadores da boa música do quanto à relevância comercial às vezes não se associa com a grandiosidade de uma obra, como a de “Rising”.

# “Rising” atingiu o #6º lugar nas paradas britânicas e o #48º lugar nas paradas americanas da Billboard;

# Bruce Dickinson, vocalista da banda de Heavy Metal britânico, Iron Maiden, já assumiu publicamente que Rising é um dos seus 5 álbuns favoritos.

– Na edição #4 da revista Kerrang!, Rising foi votado por críticos e fãs como o melhor álbum de Heavy Metal de todos os tempos.

# “Stargazer” foi regravada por uma série de artistas da mídia, contando com infinitas versões. Tais como: a banda Dream Theater, Týr, Axel Rudi Pell entre outras. O mesmo ocorreu com “Startruck”, cuja as bandas Chicago Bible of The Devil, Motorhead e outras também regravaram.

# A faixa “Kill the King”, que faria parte do 3º álbum do Rainbow, foi apresentada pela primeira vez na turnê do Rising ainda em 1976, contando com um registro presente no álbum ao vivo “On Stage”.

# Ritchie Blackmore já assumiu como fonte de inspiração de “Stargazer” a música “Kashmir”do Led Zeppelin, lançada um ano antes em 1975. Em especial a parte sinfônica dos violinos e teclados.

# Em Fevereiro de 2011 foi lançada uma edição comemorativa do disco em versão dupla. Essa “Deluxe Edition” apresenta diferentes mixagens das seis faixas + uma versão de “Stargazer” em uma passagem de som. Item indispensável para qualquer fã mais dedicado.

# Em 2014, em um álbum tributo a Ronnie James Dio, na canção chamada “Ronnie Rising Medley” o Metallica gravou um medley que contou com a junção de “Stargazer”, “Tarot Woman” e “A Light in the Black”. Que você pode conferir abaixo: https://www.youtube.com/watch?v=qN1rw1O55qE

Rainbow-RisingLOS ANGELES, USA - 1st JUNE: Rock group Rainbow featuring guitarist Ritchie Blackmore (right) and singer Ronnie James Dio (1942-2010) (left) posed in Los Angeles, USA in June 1975. (Photo by Fin Costello/Redferns)

Uma das maiores duplas do Rock: DIO & Blackmore – ao lado, o cartaz de lançamento do álbum nas lojas da época.

Faixas em LP:

Lado A

  • “Tarot Woman” (Dio/Blackmore) – 5:58
  • “Run With The Wolf” (Dio/Blackmore) – 3:48
  • “Startruck” (Dio/Blackmore) – 4:06
  • “Do You Close Your Eyes?” (Dio/Blackmore) – 2:56

Lado B

  • “Stargazer” (Dio/Blackmore) – 8:26
  • “A Light In The Black” (Dio/Blackmore) – 8:12

Integrantes

  • Ritchie Blackmore: guitarras
  • Ronnie James Dio: vocais
  • Cozy Powel: bateria
  • Tony Carey: teclados e sintetizadores
  • Jimmy Bain: baixo

Participações especiais

  • Munich Philharmonic Orchestra : instrumentos de cordas e sopro;
  • Fritz Sonnleitner : Mestre de concerto;
  • Rainer Pietsch : Condutor;

Produção e mixagem

  • Martin Birch – com gravações no Musicland Studios, em Munique, Alemanha – Fevereiro de 1976;

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